A metáfora do corpo II: Beleza se põe à mesa

17/08/2014 00:00

Presenciamos, cada vez mais, a adoração em massa do corpo. O que está em voga, principalmente depois do estouro da aeróbica nos EUA na década de 80, é o corpo jovem, atlético, moldado segundo a vontade e as modas das academias, deixando salientes ossos e músculos.

Em nossa sociedade de consumo, a fonte vital de todas as energias é o corpo. Para se ter saúde, é preciso ter um corpo saudável; e, para tanto, é necessário obedecer a inúmeras regras, leis de medida, peso e volume.

Nossa estética, nossa moda, nossos costumes, nossas emoções, praticamente tudo hoje está voltado ao corpo - sobretudo se ele é jovem e belo.  A todo momento, somos bombardeados com mensagens liminares e subliminares que nos pedem que vendamos nossas idéias em troca de nossos corpos, como se nossa salvação dependesse da boa forma e da boa aparência.

A Publicidade vende-lhe milhares de produtos e serviços. A Psicologia ensina-lhe como se comportar, como se moldar ao social. A Religião dita-lhe as regras de conduta para com Deus e o homem, tolhendo-lhe os movimentos e os instintos. E a Arquitetura encarrega-se de dar-lhe o melhor abrigo, ou o melhor encouraçamento.

De um lado, vemos florescer um sem número de academias de ginástica, templos onde se pode cultuar o corpo até o fanatismo. Por outro lado, o erotismo invade as casas, denunciando que o objeto de culto, modelado ao gosto das massas, entrega-se à exploração de seus fiéis, mas está mais que nunca sem identidade.

 

De signo do pecado a instrumento de liberdade

Corpos nus, de homens e mulheres, dançam às claras na frente de todos como se os tabus já estivessem quebrados. Na verdade, os velhos tabus continuam inteiros e bem vivos, estando apenas explícitos, curtindo a embriaguez da hipocrisia iconoclasta das instituições corrompidas.

De instrumento-signo do pecado, suscetível às manifestações do mal e do demônio (como nos tem feito crer a Igreja Cristã desde bem antes da Idade Média até os dias atuais), vemos agora o corpo humano tornar-se objeto-instrumento de revolução, símbolo de ideais de potência, competência e perfeição.

Foi sobre o corpo que pesaram os maiores tabus dos últimos séculos. E, paradoxalmente, é dele que nasce a esperança contemporânea de liberdade, criatividade e espontaneidade.

Nossa cultura do corpo transformou-se num verdadeiro culto à forma e à estrutura. Vivemos a ditadura do corpo. Preso das instituições, escondido atrás dos papéis sociais, o corpo está menos para consumir que ser consumido. Ele não é um meio, é um fim. Não importa quem ele representa, mas o que representa.

 

O corpo a serviço do mito do Guerreiro

Como um retorno aos antigos ideais gregos de vigor e formosura, buscamos hoje, através da figura do atleta olímpico, personificar o mito do Guerreiro. Pois a força do guerreiro olímpico encontra-se justamente no corpo, e nele (e a partir dele) deve se expressar.

Segundo esses ideais olímpicos, ao atleta não devem faltar força física, resistência, vontade de competir e quebrar recordes. Do guerreiro, exigem-se a potência e a virilidade típicas do macho, o ímpeto de quebrar  barreiras  e de estar sempre pronto para a luta. Para o guerreiro, seu escudo é a sua própria coragem. Já para o atleta, a grande "arma" é a técnica aplicada em serviço do homem saudável.

No entanto, cada vez que nos rendemos à tentação de sublimar nossos desejos e necessidades através do cuidado com o corpo, estamos renegando nossa condição de cidadãos autônomos. Passamos a ser soldados camuflados, máquinas combatentes a serviço dos ditames da saúde.

E o pior: soldados de muitos músculos e pouco cérebro, "Rambos" manipulados pelo poder dominante. É este  um dos lados negativos do arquétipo do Guerreiro, que sobrepõe a força do físico à força do espírito.

Quanto mais louvamos a imagem fisicultural perfeita, mais nos entregamos aos caprichos do efemêro, tentando torná-lo eterno. Afinal, quem muito se preocupa com a beleza física, pouco tempo tem para cuidar do intelecto.

A sociedade atual parece sonhar de olhos abertos com a imortalidade do corpo, com as "bençãos" da juventude eterna. Mas será que estamos mesmo preparados para a imortalidade?

 

[© Rosy Feros, 1993. Ensaio originalmente publicado na revista eletrônica online "InterNeWWWs" em jan/2000. Em 2005, na prova de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do vestibular  da Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ havia uma citação deste texto como um dos 3 temas propostos para a redação.]

 

 


 

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