Conhecendo as origens do Ciberespaço

16/08/2014 23:44

Muito se fala de ciberespaço, mas não são poucos os que desconhecem a real origem do termo e por que ele se tornou famoso na atualidade.

Saber sua origem, no entanto, não basta para conhecê-lo. Para saber de fato e de direito em que consiste o ciberespaço, é necessário vivenciá-lo, participando de seu meio-ambiente e assimilando suas estruturas de organização e evolução.

 

Cibernética, a origem de tudo

A origem do termo ciberespaço remonta à teoria da Cibernética. "Kybernetes" é o termo grego que na antigüidade designava a técnica da pilotagem - o saber que permite o piloto conduzir bem sua embarcação.

Foi o filósofo Platão que enriqueceu o termo, empregando-o para designar não só o saber conduzir uma embarcação, mas também o destino dos homens em sociedade. Em suma, a arte de governar. Mais tarde, foi daí que se originou a palavra "governo".

Por muito tempo o termo cibernética esteve em desuso e esquecido, até Norbert Weiner, matemático norteamericano, trazê-lo de volta à cena nos anos 40. Foi ele que elevou a "arte de governar" de Platão ao status de teoria científica, fundando aquela que seria mais tarde um dos fundamentos para a compreensão do ciberespaço criado a partir das redes telemáticas.

Nas palavras do próprio Weiner, Cibernética, também chamada de Teoria Geral dos Sistemas, "é o domínio todo da teoria da comunicação e do controle, seja na máquina ou no animal". [BENNATON, Jocelyn. "O que é Cibernética". Coleção Primeiros Passos, Vol. 22, Edição Integral, São Paulo, Círculo do Livro S.A., 1992, p. 114.]

Nos dias atuais, pode-se dizer que a Cibernética trata, em pequena escala, do controle de máquinas, e, em larga escala, do controle e governo de organismos sociais maiores - como uma cidade, um país ou continente. Seu enfoque é o comportamento dos sistemas: o estudo dos esquemas de controle existentes e o trânsito da informação.

Etimologicamente, governar, controlar e pilotar são variações do termo conduzir. Conduzir algo (ou alguém) pressupõe a existência de um vínculo entre o que/quem conduz e o que/quem é conduzido. Naturalmente, revela-se aí uma relação de poder de mão dupla, em que uma parte influi diretamente na outra, gerando o que se chama de retroalimentação ou "feedback".

Não é à toa que, a partir do desenvolvimento e avanço da Informática, Robótica e Telemática, os termos "feedback" e "interatividade" assumiram de importância crucial, pois destacam a importância da Cibernética para análise e compreensão de fenômenos ocorridos no ciberespaço.

 

Ciberespaço, uma alucinação consensual

Ciberespaço (do original em inglês, "cyberspace") é um neologismo criado em 1982 pelo escritor norte-americano William Gibson em seu livro "Neuromancer", romance de ficção científica em que ele descreve uma sociedade do futuro totalmente informatizada, na qual habitam cidadãos "cyberpunks". Ou, em outros termos, "hackers".

É com base no sentido de governo e de sistemas sociais de informação que surge o termo ciberespaço, que resumidamente pode ser definido como um "espaço cibernético de dados" no qual informações são modeladas, sistematizadas, administradas e governadas.

Apesar do neologismo de Gibson ser coisa recente, o conceito de ciberespaço é tão antigo quanto o homem. Acompanha-nos desde a pré-história, quando nossos ancestrais reuniam-se em volta da fogueira e contavam histórias de caça, cativando a atenção dos presentes e transportando-os a um mundo imaginário de lutas e sonhos.

Toda a cultura humana está baseada em ciberespaços de dados: todas as religiões, mitos, lendas, filosofias, ciências, artes e demais sistemas de crença humanos são modelos de pensamentos, abstratos e invisíveis. Sistemas dinâmicos de autoridade e poder que persuadem e convencem, conforme nosso envolvimento (interatividade) com eles.

A principal característica do ciberespaço é a fé que as pessoas tem nele. É preciso acreditar para vivenciá-lo, interagir profundamente, ter real empatia com seu sistema de valores ou modelo de pensamento. Pegando emprestado um termo do antrópologo francês Lévy-Brühl, é uma espécie de "participation mystique", ou participação mística.

Gibson chama o ciberespaço também de "matrix" ou "dança dos dados": um espaço em que todas as pessoas envolvidas dançam conforme a música dos dados, ou seja, pensam e agem segundo certos modelos pré-configurados de crenças, ou matrizes de pensamentos. Tais matrizes são os "databases", ou bancos de dados em que navegamos sempre em que acreditamos em algo. Tais conceitos tornaram-se a base do roteiro do famoso filme "Matrix", estrelado por Keanu Reeves.

Há uma outra forma, extremamente prática e singela, de se definir ciberespaço: "o lugar onde as pessoas se encontram quando falam ao telefone". Quem disse isto foi John Perry Barlow, um dos fundadores da "Electronic Frontier Foundation".

Isto tem a ver com o pensamento infantil e seus espaços imaginários, e nos dá uma pista para compreendermos um pouco mais o envolvimento total e sem reservas que as pessoas tem quando navegam nos ciberespaços sociais de dados, não importam quais sejam eles. O pensamento mágico da criança, desta forma, encontra-se absurdamente próximo ao que Gibson chamou em seu romance de "alucinação consensual".

 

[© Rosy Feros, 2001. Projeto de revista eletrônica "Fractoscópio" nº 1]

 

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Para ir além:

 

Livros

  • GIBSON, William. Neuromancer. São Paulo, Ed. Aleph, 3ª edição, 2003.
  • WIENER, Norbert. Cibernética e sociedade: o uso humano de seres humanos. São Paulo, Ed. Cultrix, 1978.
  • DE GREGORI, Waldemar. Cibernética Social. São Paulo, Ed. Cortez, 1984.

 

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