Os filhos do trem

28/07/2014 23:34

Uma abordagem sócio-psicológica para a compreensão do fenômeno do sexo livre em bailes de jovens


De meados de fevereiro deste ano para cá, várias matérias jornalísticas e artigos de opinião surgiram na TV, jornais e revistas do eixo Rio-SP relatando os casos de sexo grupal entre jovens ocorridos em bailes funk na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Até na internet, tais matérias têm se transformado em foco de discussão acirrada e motivo para distribuição de correntes de opinião em listas de e-mail, não só no Brasil como no exterior.

 

Bailes funk aparecem na mídia como propulsores do sexo

Vejamos o que relatou o jornal Folha de SP, em 09/03/01:

"A Secretaria Municipal da Saúde do Rio está denunciando casos de meninas que afirmam ter engravidado depois de manter relação sexual dentro dos bailes funks. O mais grave, segundo a secretaria, é que as meninas nem sabem quem são os pais de seus filhos. (...) As garotas relatam às assistentes sociais que a nova diversão é a chamada "dança das cadeiras". (...) Quando toca a música, as meninas - que devem estar usando saia e muitas vezes não estão de calcinha - dançam numa roda em volta dos assentos. No momento em que a música pára, elas sentam-se no colo de quem estiver à sua frente, mesmo que não saibam quem é o rapaz. (...) A possibilidade de gravidez indesejada e de transmissão de doenças sexualmente transmissíveis, além da AIDS, é uma coisa fantástica".

Não é de estranhar que tais fatos tenham gerado polêmica e uma certa comoção nacional e internacional, visto que tal comportamento promíscuo por parte desses jovens revela um profundo distúrbio social vivido por eles, com graves repercussões morais e éticas, para não dizer sócio-econômicas e de saúde pública.

Sem dúvida, choca-nos o fato desses jovens, muitos deles menores de idade, agirem sem a menor preocupação contraceptiva ou receio de contraírem doenças sexualmente transmissíveis, como a AIDS. Um bebê nascido por decorrência da "diversão das cadeiras" já foi chamado por uma mãe adolescente de "filho do trem", pelo fato dela ter mantido várias relações sexuais com parceiros diferentes num mesmo baile, fazendo parte de "trenzinhos sexuais" e, assim, desconhecer a real paternidade da criança.

Mas, se esses jovens não se preocupam com a possibilidade de gravidez, como vão se preocupar com a sífilis ou AIDS? A questão mais importante, a meu ver, não é o sexo em si, muito menos o funk que toca nos bailes. Fazer uma crítica ao funk não é o que se intenciona aqui, muito menos considerar que o sexo livre entre jovens em bailes seja um fenômeno tipicamente  carioca.

O que se pretende é analisar amplamente a problemática, na tentativa de encontrar os possíveis motivos que levam os jovens a agir de maneira promíscua e, por que não dizer, suicida nos bailes de fim-de-semana, tendo como ponto de partida os casos de gravidez e transmissão de doenças entre adolescentes descritos anteriormente.



Comportamento reptiliano e comportamento mamífero

O funk, na verdade, é apenas um pretexto para a expressão de fenômenos que estão ocorrendo na estrutura social urbana, nem sempre visíveis a olho nu. Tais fenômenos de distúrbio social estão acontecendo em bailes funk no Rio, mas podem estar ocorrendo em outros cantos do país, associados ou não a outros tipos de manifestações musicais. E podem estar ocorrendo também fora do Brasil, uma vez que a associação entre sexo e violência não é um fenômeno estritamente local, isolado e sem antecedentes.

Talvez, se especularmos um pouco sobre algumas teorias consagradas que tratam do comportamento social humano, podemos descobrir por que esses jovens têm se entregado deliberadamente ao sexo como forma de afirmação no grupo, sem se preocuparem com nada ou ninguém, a não ser narcisicamente neles mesmos.

Segundo o psicanalista Sigmund Freud, todos nós temos um lado absolutamente primitivo, geralmente inconsciente, voltado à satisfação das necessidades básicas de fome, sede, frio, calor, sexo e delimitação de território. Este lado, que Freud chamou de Id, compartilhamos com os répteis e representa o que temos de mais natural e instintivo.

Em contraponto ao Id temos o Superego, formado pelo nosso aprendizado social em família, entre amigos, vizinhos e grupos sociais mais próximos (como pequenas associações de bairro, igreja, clubes, incluindo a TV, cinema e outras formas de entretenimento). Estes são os núcleos sociais em que aprendemos informalmente as rotinas e procedimentos básicos para viver em sociedade. Mais tarde e de forma complementar, surgem a escola, os cursos técnico-profissionalizantes e outros tipos de aprendizagem formal. É com eles que iremos conhecer e aprender a lidar com a autoridade e os vários níveis de hierarquia social.

O conjunto de aprendizagens sociais, formais e informais, constitui o processo de socialização, que nos habilita a viver saudavelmente em grupos, conhecendo e respeitando as diferenças e aprendendo a lidar com as várias idiossincrasias sociais. Aprendendo como viver em grupos é que desenvolvemos a moral e a ética, assim como modelamos nosso caráter. Tal processo gradual de socialização compartilhamos com os mamíferos, de uma forma geral, e com algumas famílias de insetos, como abelhas, formigas e cupins.

A partir do equilíbrio alcançado entre as pulsões instintivas e genéticas do Id e o Superego socialmente aprendido é que formamos o que Freud chamou de Ego. A estruturação do Ego, em verdade, é uma conquista, pois depende diretamente de nossa vontade de crescer como indivíduos, com características próprias e intransferíveis.

O que nos caracteriza como humanos é o potencial que temos em aprender a viver em sociedade e pensarmos como indivíduos. A conquista do Ego, que se sobrepõe à massa e à multidão cega, que reflete sobre si mesmo e os outros e raciocina por si, indo além de todos os aprendizados, é o grande desafio humano em todo o processo civilizatório.

Abraham Maslow, psicólogo criador da Teoria Motivacional, classificou as necessidades humanas em três níveis básicos crescentes (necessidades ou motivações primárias, secundárias e terciárias), que pressupõem uma escala evolutiva. Ou seja, o indivíduo não poderia partir para a satisfação de necessidades secundárias enquanto as primárias não estivessem plenamente resolvidas, e assim por diante.

Podemos comparar os três níveis básicos da escala motivacional de Maslow com os três estágios de evolução do cérebro humano descritos por Paul McLean: motivos físicos primários/cérebro réptil, motivos de interação/cérebro mamífero, motivos de auto-realização/neocórtex ou cérebro humano.

Tais especulações, que podem a princípio parecer óbvias ou desnecessárias, revelam-se bastante úteis quando tentamos compreender o que possivelmente tem motivado aqueles jovens a agirem de forma promíscua e inconseqüente nos bailes funk, desencadeando uma série de fatos e desdobramentos sociais que compõem um cenário não muito promissor para o futuro.



A música e a dança como catalisadores de emoções primitivas

O que primeiramente nos chama a atenção é que o comportamento de sexo coletivo deflagrado nos bailes funk não se trata propriamente de comportamento social, no sentido de ética grupal, referente aos assuntos da comunidade, mas sim de algo AQUÉM do social. A atitude deliberadamente inconseqüente desses jovens não parece ter atingido ainda o nível de aprendizagem social de que falamos anteriormente, muito menos o nível do ego consciente, racional e reflexivo.

Tais atitudes revelam pessoas aparentemente incapazes de discernir o que e quais são seus direitos e deveres, responsabilidades e as relações de causa-efeito naturais quando se vive em sociedade. Suas ações parecem movidas unicamente pelo instinto, próprias de um Id primal que parece desconhecer a implicação de quaisquer atos feitos em grupo.

Ainda usando Freud como bússola básica, sabemos que os instintos do Id podem estar voltados para a criação e prazer (instintos de Eros) ou para a destruição e morte (instintos de Tânatos). O que percebemos a partir do comportamento anti-social desses jovens é uma necessidade de satisfação de instintos sexuais que não visa ao prazer e à criação propriamente, mas uma satisfação aliada à violência (física e psicológica) com instintos auto-destrutivos, para não dizer suicidas.

Esses jovens não parecem se preocupar com quanto tempo irão viver após a noite do baile, tampouco atentar para as mortes ou vidas geradas a partir de seu descaso durante a "dança das cadeiras". Tanto a AIDS quanto o nascimento de bebês não-planejados, por exemplo, podem surgir direta e indiretamente de sua irresponsabilidade ou incapacidade de viver em sociedade, e tanto um quanto o outro podem levar a processos sociais de degradação e auto-destruição, se não contornados a tempo.

A pergunta é: como contornar tais processos a tempo? Antes: como identificá-los, se de fato existem, e como chegar aos reais porquês de isto tudo estar acontecendo? Se voltarmos nossa atenção só para o funk, julgando ser ele o real influenciador e motivador das relações de sexo coletivo nos bailes, estaremos desviando nossa atenção do que realmente importa.

 

Os filhos do trem: o sono da razão que gera monstros

Autoridades cariocas chegaram a sugerir o fechamento dos bailes funk em que fossem comprovados casos de sexo entre jovens. Isto seria o equivalente a, por exemplo, fechar as escolas em que ficasse comprovado o uso de drogas por alunos. Punição inócua, pois não se atingiria a raiz do problema, mas seus sintomas.

A bem da verdade, o funk, enquanto dança e representação musical, é apenas um grande catalisador emocional para esses jovens. Trata-se de um elemento cultural de uso e entendimento comuns, que reflete suas posturas sociais típicas e tem a capacidade de agregá-los num mesmo lugar, motivados pelos mesmos desejos e propósitos. Do comportamento desses jovens e da análise da letra de algumas músicas ditas funk, de estrondoso sucesso atual (como as do grupo "Bonde do Tigrão" e "Furacão 2000"), pode-se depreender que esses jovens não estão preocupados em compôr verdadeiramente um movimento urbano de contestação social e muito menos de rebeldia política, visto que não apresentam críticas sérias de ordem social e não têm um poder sólido de congraçamento coletivo ao nível ideológico.

Tais jovens não parecem entregar-se ao sexo deliberado nos bailes de forma consciente, usando o sexo livre como instrumento de reação a uma suposta forma de dominação política, por exemplo. Eles não realizam nenhuma transgressão, seu ato não se opõe ideologicamente a nenhum outro. Não há crítica, questionamentos de qualquer espécie. Sua conduta é a-moral e a-ética, não se rege por princípios de pertencimento ou de exclusão social. O sexo livre nos bailes não é um meio para se atingir um determinado fim, mas um fim em si mesmo. Os jovens parecem livres de qualquer apego ao social, preocupados somente com uma satisfação básica reptiliana.

A demarcação do território é clara: os bailes são os locais de poder, onde eles se sentem livres para agirem como bem (ou mal) entendem, e as regras que regem a ocupação deste território derivam do protocolo comum aos bailes juvenis. Têm a dança como linguagem simbólica, o corpo como ícone e os gestos erotizantes indicam o desejo de consumação sexual.

Estas moças e rapazes representam o que pode existir quando uma sociedade não oferece mínimas condições de sobrevivência social digna e satisfatória. São jovens fruto de núcleos familiares desestruturados ou inexistentes, que carecem do aprendizado social formal e informal que os pudesse preparar para viver satisfatoriamente em sociedade.

Estas meninas e meninos, cujo comportamento inconseqüente dá indícios de uma idade mental e emocional típicas de um estágio de vida infantil pré-socializado, são o produto estatístico de uma sociedade que não se preocupa com o abismo social e cultural inóspito em que está mergulhada grande parcela da nossa população. São fruto não só de uma condição sócio-econômica deficitária, mas de uma pobreza emocional, intelectual, moral e ética, uma pobreza genuína de valores e princípios sociais - valores esses dos quais, teoricamente, todos nós mamíferos deveríamos partilhar.

Isto tudo traz à lembrança a célebre frase do pintor espanhol Francisco de Goya, inscrita num de seus mais famosos quadros(da série "Os Caprichos"): "O sono da razão produz monstros". Como não encarar estes meninos e meninas como sendo aberrações do ponto de vista social e antropológico, uma vez que seu comportamento sexual primal apresenta compulsão réptil, não se assemelhando ao comportamento de várias outras espécies de mamíferos? Como não considerá-los monstros gerados por uma razão social que dorme?

Fenômenos como este do sexo livre em bailes funk funcionam como sinais sociais de alerta, demonstrando que há problemas sérios e necessidades mal-resolvidas. Lembrando que não há como satisfazer as necessidades secundárias de convívio e planejamento social se as necessidades primárias reptilianas de alimentação, moradia, saúde e segurança não forem plena e potencialmente satisfeitas.

A sociedade que dorme também deve se sentir responsável  pelos monstros que gera e cria, à revelia de sua vigília. Caso contrário, padecerá em pesadelos. Ou acordamos ou seremos acordados à força, por uma simples questão de sobrevivência social.

[© Rosy Feros, 2001. Artigo originalmente publicado no site da ONG "Leia Brasil", na seção Suporte para Leitura.]

 

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