Livros que constrangem e causam dor

24/09/2021 03:18

Um dos grandes motes da Literatura (há quem diga que talvez seja o único) tem sido mostrar como surgem e se desenrolam os grandes conflitos da humanidade, quer sejam entre famílias, nações, gerações ou conflitos pessoais internos. Por que alguém haveria de ver, agora, problemas nisso?
Foi lançado, em 2015, um livro infantil no Brasil sobre a biografia do grande escritor, advogado e abolicionista brasileiro Luiz Gama. Intitulado "ABECÊ da Liberdade: A história de Luiz Gama, o menino que quebrou correntes com palavras ", tem como autores José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, e ilustrações de Edu Oliveira.
Lançado originalmente em 2015 pelo selo Alfaguara da Editora Objetiva (e posteriormente incorporado ao catálogo da editora Companhia das Letrinhas), o livro teve uma reimpressão em 2020, sem alterações. Mas uma pessoa, que comprou o livro recentemente para presentear uma criança, sentindo-se constrangida com cenas do livro que narram crianças negras brincando entre correntes num navio negreiro, achou-se no direito de criticar tal coisa aos quatro ventos. Tanto se fez, criticou e julgou que a editora chegou a emitir a seguinte nota pública de "pedido de desculpas": "Lamentamos profundamente que esse ou qualquer conteúdo publicado pela editora tenha causado dor ou constrangimento a algum de nossos leitores ou leitoras".
E não ficou só nisso: a Companhia das Letras resolveu bloquear a venda do livro em seu site e recolher a obra em livrarias. Um ato claro de censura à obra, aos autores e à pessoa do biografado. E o mais dramático de tudo: um tiro sem dó, nem piedade, no coração dos potenciais leitores.
O imbróglio que armaram junto à referida editora foi de um estardalhaço sem necessidade - para não dizer um contrassenso, no que diz respeito à razão de existir e funções naturais da própria Literatura.
É preciso perguntar qual o grande pecado cometido pela editora ou pelos autores nessa publicação. É preciso desmascarar o que porventura não esteja sendo dito. Por que uma singela cena de crianças negras, brincando entre correntes e escravos num navio negreiro, ganharia mais notoriedade aos olhos do leitor, em sua experiência de leitura da obra? E por que acreditar que tal suposta crueldade ou "violência simbólica" seria capaz de suplantar a riqueza da própria biografia do abolicionista retratado no livro? Sem contar que leitores poderiam passar totalmente batido por essas cenas - até porque crianças não se escandalizam com textos; quem procura pêlo em ovo são os adultos.
A Literatura sempre foi um dos grandes instrumentos de aprendizado da vida humana: de conhecimento das emoções, de comportamentos, de lugares e épocas diferentes. Dentre tantos aprendizados possíveis, é através de personagens literários que conhecemos, muitas vezes em primeira mão, certas facetas escuras e tenebrosas da personalidade humana. E, então, compreendemos que ser verdadeiramente humano é trafegar por vários caminhos e fronteiras, que vão justamente do amor ao ódio.
Um dos grandes motes da Literatura (há quem diga que talvez seja o único) tem sido mostrar como surgem e se desenrolam os grandes conflitos da humanidade, quer sejam entre famílias, nações, gerações ou conflitos pessoais internos. Por que alguém haveria de ver, agora, problemas nisso?
Mary Jo Godwin, conhecida editora e consultora bibliotecária americana, já disse que "Uma biblioteca realmente excelente contém algo nela capaz de ofender a todos." Ou seja, uma biblioteca que se preze sempre terá algum livro que desagradará alguém. E é bom que seja assim!
Parece que querem problematizar coisas sem necessidade. Não é a Literatura o reino do possível e do impossível, da imaginação sem censura? Em tempos de unicórnios coloridos, estão vendo chifres em cabeça de cavalo e julgando tal fato potencialmente perigoso.
Até porque não foram os grandes vilões da Literatura mundial que criaram os monstros cruéis da vida real. A vileza humana existe desde sempre, e quantas vezes não foi gatilho para se criarem grandes personagens literários. Não é lendo histórias de crueldades que se aprende a ser cruel, assim como não é somente lendo romances água-com-açúcar que se criam seres doces e amáveis. O que vemos acontecer com frequência é justamente o contrário, o leitor sentir asco do personagem cruel. Quantas vezes a crueldade narrada e descrita nas páginas literárias não motiva o surgimento e crescimento dos bons sentimentos, exatamente pela percepção de seus contrários?
Lendo todas essas histórias e conhecendo múltiplos personagens é que o leitor aprende que o ser humano é vasto, múltiplo e que não cabe numa história só. Por isto é que é bom termos inúmeros exemplos literários de humanos, das mais variadas épocas, tipos e cores. É a partir disto que a Literatura de um país existe, cresce e amadurece.
Daniel Pennac, professor de Francês, apaixonado por pedagogia e um dos autores mais importantes da literatura popular francesa contemporânea, em seu livro "Como um Romance" (1992) descreve "Os 10 direitos do Leitor". Dentre eles, constam "o direito de não ler" e "o direito de ler qualquer coisa". Enfim, o leitor é e sempre foi um tipo exigente. Não se deveria pressupô-lo como um ingênuo, um "tábula rasa", uma folha de papel em branco totalmente virgem de experiências e de neurônios que pensam. Ainda que seja uma criança. O leitor é um devorador de almas, um co-criador de universos, voraz, incansável e não-seletivo. Estão aí os vários gêneros literários que não nos deixam mentir.
A Literatura permite que o leitor conheça tudo e todos, todas as cores (e dores) do mundo. Cabe, pois, aos editores não frustrarem essa grande expectativa do leitor de conhecer os vários universos que existem, impedindo-o de exercer o seu direito natural de ser o grande crítico das obras que lê.
A Literatura também está aí, portanto, para causar dor e constrangimento. Isto não deveria ser considerado uma afronta, sequer um crime. Trata-se, na verdade, de uma das grandes dádivas que a grande Literatura nos proporciona.
Não é selecionando tipos, omitindo épocas, maquiando personagens e escondendo ações dos olhos de quem lê que se criam bons leitores. O que pode acontecer é tudo isso provocar, lamentavelmente, o infortúnio de termos cada vez menos leitores.
 
[© Rosy Feros, 16/09/2021]
Um dos grandes motes da Literatura (há quem diga que talvez seja o único) tem sido mostrar como surgem e se desenrolam os grandes conflitos da humanidade, quer sejam entre famílias, nações, gerações ou conflitos pessoais internos. Por que alguém haveria de ver, agora, problemas nisso?
 
Foi lançado, em 2015, um livro infantil no Brasil sobre a biografia do grande escritor, advogado e abolicionista brasileiro Luiz Gama. Intitulado "ABECÊ da Liberdade: A história de Luiz Gama, o menino que quebrou correntes com palavras", tem como autores José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, e ilustrações de Edu Oliveira.
 
Lançado originalmente em 2015 pelo selo Alfaguara da Editora Objetiva (e posteriormente incorporado ao catálogo da editora Companhia das Letras), o livro teve uma reimpressão em 2020, sem alterações. Mas uma pessoa, que comprou o livro recentemente para presentear uma criança, sentindo-se constrangida com cenas do livro que narram crianças negras brincando entre correntes num navio negreiro, achou-se no direito de criticar tal coisa aos quatro ventos. Tanto se fez, criticou e julgou que a editora chegou a emitir a seguinte nota pública de "pedido de desculpas": "Lamentamos profundamente que esse ou qualquer conteúdo publicado pela editora tenha causado dor ou constrangimento a algum de nossos leitores ou leitoras".
 
E não ficou só nisso: a Companhia das Letras resolveu bloquear a venda do livro em seu site e recolher a obra em livrarias. Um ato claro de censura à obra, aos autores e à pessoa do biografado. E o mais dramático de tudo: um tiro sem dó, nem piedade, no coração dos potenciais leitores.
 
O imbróglio que armaram junto à referida editora foi de um estardalhaço sem necessidade - para não dizer um contrassenso, no que diz respeito à razão de existir e funções naturais da própria Literatura.
 
É preciso perguntar qual o grande pecado cometido pela editora ou pelos autores nessa publicação. É preciso desmascarar o que porventura não esteja sendo dito. Por que uma singela cena de crianças negras, brincando entre correntes e escravos num navio negreiro, ganharia mais notoriedade aos olhos do leitor, em sua experiência de leitura da obra? E por que acreditar que tal suposta crueldade ou "violência simbólica" seria capaz de suplantar a riqueza da própria biografia do abolicionista retratado no livro? Sem contar que leitores poderiam passar totalmente batido por essas cenas - até porque crianças não se escandalizam com textos; quem procura pêlo em ovo são os adultos.
 
A Literatura sempre foi um dos grandes instrumentos de aprendizado da vida humana: de conhecimento das emoções, de comportamentos, de lugares e épocas diferentes. Dentre tantos aprendizados possíveis, é através de personagens literários que conhecemos, muitas vezes em primeira mão, certas facetas escuras e tenebrosas da personalidade humana. E, então, compreendemos que ser verdadeiramente humano é trafegar por vários caminhos e fronteiras, que vão justamente do amor ao ódio.
 
Um dos grandes motes da Literatura (há quem diga que talvez seja o único) tem sido mostrar como surgem e se desenrolam os grandes conflitos da humanidade, quer sejam entre famílias, nações, gerações ou conflitos pessoais internos. Por que alguém haveria de ver, agora, problemas nisso?
 
Mary Jo Godwin, conhecida editora e consultora bibliotecária americana, já disse que "Uma biblioteca realmente excelente contém algo nela capaz de ofender a todos." Ou seja, uma biblioteca que se preze sempre terá algum livro que desagradará alguém. E é bom que seja assim!
 
 
Parece que querem problematizar coisas sem necessidade. Não é a Literatura o reino do possível e do impossível, da imaginação sem censura? Em tempos de unicórnios coloridos, estão vendo chifres em cabeça de cavalo e julgando tal fato potencialmente perigoso.
 
Até porque não foram os grandes vilões da Literatura mundial que criaram os monstros cruéis da vida real. A vileza humana existe desde sempre, e quantas vezes não foi gatilho para se criarem grandes personagens literários. Não é lendo histórias de crueldades que se aprende a ser cruel, assim como não é somente lendo romances água-com-açúcar que se criam seres doces e amáveis. O que vemos acontecer com frequência é justamente o contrário, o leitor sentir asco do personagem cruel. Quantas vezes a crueldade narrada e descrita nas páginas literárias não motiva o surgimento e crescimento dos bons sentimentos, exatamente pela percepção de seus contrários?
 
Lendo todas essas histórias e conhecendo múltiplos personagens é que o leitor aprende que o ser humano é vasto, múltiplo e que não cabe numa história só. Por isto é que é bom termos inúmeros exemplos literários de humanos, das mais variadas épocas, tipos e cores. É a partir disto que a Literatura de um país existe, cresce e amadurece.
 
Daniel Pennac, professor de Francês, apaixonado por pedagogia e um dos autores mais importantes da literatura popular francesa contemporânea, em seu livro "Como um Romance" (1992) descreve "Os 10 direitos do Leitor". Dentre eles, constam "o direito de não ler" e "o direito de ler qualquer coisa". Enfim, o leitor é e sempre foi um tipo exigente. Não se deveria pressupô-lo como um ingênuo, um "tábula rasa", uma folha de papel em branco totalmente virgem de experiências e de neurônios que pensam. Ainda que seja uma criança. O leitor é um devorador de almas, um co-criador de universos, voraz, incansável e não-seletivo. Estão aí os vários gêneros literários que não nos deixam mentir.
 
 
A Literatura permite que o leitor conheça tudo e todos, todas as cores (e dores) do mundo. Cabe, pois, aos editores não frustrarem essa grande expectativa do leitor de conhecer os vários universos que existem, impedindo-o de exercer o seu direito natural de ser o grande crítico das obras que lê.
 
A Literatura também está aí, portanto, para causar dor e constrangimento. Isto não deveria ser considerado uma afronta, sequer um crime. Trata-se, na verdade, de uma das grandes dádivas que a grande Literatura nos proporciona. Não é selecionando tipos, omitindo épocas, maquiando personagens e escondendo ações dos olhos de quem lê que se criam bons leitores. O que pode acontecer é tudo isso provocar, lamentavelmente, o infortúnio de termos cada vez menos leitores.
 
[© Rosy Feros, 16/09/2021]
 

 

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