O rebaixamento da alta Cultura

10/07/2018 12:06

Nos tempos atuais, a Cultura tem sido encarada como coisa menor e descartável, principalmente por quem não a conhece

Livre-se. Leia, estude, duvide e pesquise. Pense.

Nos tempos atuais, em que nos encontramos imersos em ricos oceanos de informação, a Cultura transformou-se em coisa menor e descartável, relegada à inutilidade e ao escárnio, principalmente por quem não a conhece.

Depois do advento da Internet e da democratização das redes telemáticas no século XX, nem faz sentido dizer que as pessoas não conhecem a chamada alta Cultura porque não têm acesso à ela. Até porque, hoje, qualquer pessoa tem fácil acesso a todo e qualquer material cultural produzido pela humanidade, seja criado em passado remoto ou hoje pela manhã.

No caso de se encontrarem lacunas ou falhas na divulgação do conhecimento humano (e elas existem, aos montes), qualquer pessoa hoje pode corrigir isto e acrescentar o seu quinhão de informação. E qualquer um pode fazê-lo da forma que melhor quiser - que o digam a Wikipédia e todos os blogs e sites existentes.

Fato inegável é que, por causa da tecnologia das redes de comunicação de dados, todos acabamos adquirindo "capacidade postulatória": todos, indistintamente, temos o direito à livre expressão. Tal direito somente é castrado por Estados não afeitos à liberdade de expressão, que não a reconhecem como um direito natural do indivíduo.

Entretanto, justamente quando a imensa maioria dos povos tem uma liberdade de acesso sem precedentes a todo o conhecimento humano já produzido, o nível médio das inteligências está sensivelmente mais baixo que o das gerações anteriores.

Existe, além disso, um fosso enorme separando o mundo cultural dos pais do de seus filhos, muitas vezes por uma admirável inépcia dos pais em transmitirem o que sabem àqueles que vieram depois deles.

Como a transmissão cultural no ambiente doméstico tem sido geralmente precária (com os pais mais se moldando culturalmente aos costumes dos jovens do que firmando suas próprias tradições, não se realizando a sadia troca cultural multidirecional), e percebendo-se a Escola falida e ineficaz em suas teorias e práticas de ensino, o aprendizado cultural dos jovens está praticamente restringido a ser via Internet e Indústria Cultural.

Soma-se a isto o visível descaso e arrogante desinteresse de muitos jovens em quererem conhecer o que foi produzido e pensado culturalmente antes deles nascerem. E não dá para culpar os jovens por tal atitude, absolutamente, uma vez que os mais velhos também mal têm se preocupado em salvaguardar os tesouros de sua herança cultural (da qual deveriam ser os guardiões naturais), condenando a alta Cultura ao ostracismo.

Evolução do pensamento filosófico na Era do Conhecimento

Constata-se que, de uma forma geral, o conhecimento de História, Filosofia e Artes tem, basicamente, advindo do cinema, da TV e, quando muito, da literatura best-seller. E, quase que invariavelmente, tal conhecimento é construído a partir dos filtros da Internet. Trata-se, porém, de um conhecimento que geralmente desconhece o que é pesquisar dicionários e enciclopédias, e que só vai até onde o Google permite ir.

Fato é que muitos só conhecem produtos da alta Cultura através da mediação feita pela Indústria do Entretenimento. Absorve-se, assim, uma cultura "xerocada", pasteurizada e simplificada, sem nuances, esvaziada de suas complexidades inatas, e cheia dos vieses e juízos de valor de quem a reproduz.

O problema, no entanto, não está nos produtos de entretenimento em si mesmos - até porque eles são importantes e úteis, constituindo-se em manifestações culturais legítimas da sociedade.

O problema está no fato do Entretenimento ter se tornado praticamente a única via de acesso ao conhecimento cultural para tanta gente, independentemente das diferenças de idade, classe social ou condição econômica.

E com uma agravante: a nossa alta Cultura, menosprezada como se fosse uma "herança maldita" deixada por elites anacrônicas (e não como uma somatória de toda a sabedoria produzida antes de nós), tem sido tão maltratada e diminuída, tão rebaixada, que está subjugada à Indústria do Entretenimento.

Hoje, onipresente e todo-poderoso, o Entretenimento é visto como coisa de maior valor social que a própria Cultura - quando, na verdade, esta é a grande matriz geradora daquele.

E é a partir da Indústria do Entretenimento que têm sido gerados os deuses modernos: as celebridades midiáticas, que nos dizem o que é ou não importante para as nossas vidas, que nos ensinam o que pensar e como agir, ungidas que estão pela nobre aura da fama e da fortuna.

Não à toa, apregoa-se que vivemos hoje na "Sociedade do Espetáculo", produzindo uma Cultura e uma Educação de Entretenimento.

Quando se chega ao ponto, por exemplo, de líderes da Indústria do Entretenimento aproveitarem de sua autoridade midiática para ditar regras ou se apropriarem ideologicamente de conteúdos culturais (como se além da Cultura estivessem ou como se fossem donos da História), atribuindo a si mesmos o dom da edição das melhores narrativas, é sinal de que devemos parar para refletir. Pode ser que estejamos perdendo o fio da meada da nossa História, permitindo que seja desconstruído, aos poucos e diligentemente, todo o nosso patrimônio cultural.

Ou recolocamos as coisas em seus devidos lugares, considerando as formas sociais de Entretenimento como subprodutos da alta Cultura, dando o devido reconhecimento a todo um passado cultural esquecido e renegado pela Educação atual, ou teremos que admitir que, no futuro, os saberes da humanidade (ou o que sobrar deles) estarão à mercê de juízes e delegados culturais que muito pouco conhecerão da Cultura que os precedeu.

[© Rosy Feros, 10/07/2018]

 

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" A alta cultura é a autoconsciência de uma sociedade."

(Roger Scruton)

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